O castelo...

A família é por natureza a nossa for­ta­le­za, um castelo, um lugar seguro, um ninho de inti­mi­da­de. Os filhos são o nos­so maior tesouro. Antes de os dei­xar­mos sair, queremos saber com quem vão e o que vão fazer. Gostamos de saber que livros estão lendo ou que filme vão ver e, muitas vezes, impedimos que ve­jam um certo filme ou leiam de­ter­mi­na­do livro. Ou que andem com um certo gê­ne­ro de com­pa­nhias.
Fazemos bem. Defendemos os nossos. E sabemos per­fei­ta­men­te, pelo que ob­ser­va­mos no mundo lá fora, que há des­cui­dos que saem caros.
Em casa, fe­cha­mos as portas e per­gun­ta­mos quem é antes de abrirmos. Pre­ser­vamos a nossa in­ti­mi­da­de. Parece-nos que a nossa família tem uma i­den­ti­da­de própria, que há nela qualquer coisa que não se deve sujar com o lixo que tem por aí.
E tem por aí muito lixo.
Erguemos paredes não apenas para que o vento não entre em nossa casa.
Por que é que, então, dei­xa­mos entrar no nosso lar, no cas­te­lo, através da pe­que­na janela da te­le­visão, pessoas a quem não a­bri­rí­amos a porta se nos to­cas­sem à cam­pa­ínha; e am­bi­en­tes, ou lu­ga­res, aonde nunca nos des­lo­carí­a­mos, muito menos na com­pa­nhia dos nossos filhos?
Abrimos a tor­nei­ra quando pre­ci­sa­mos de água e li­ga­mos o a­que­ce­dor quando temos frio, mas a televisão lá em casa es­tá sem­pre fun­cio­nan­do. Por vezes de­ví­a­mos pensar melhor em certos há­bi­tos que temos.
A te­le­vi­são sem­pre li­ga­da resolve imensos pro­ble­mas, dizemos. É ex­tre­ma­men­te cômodo: os filhos sentam-se ali durante horas se­gui­das e não nos in­co­mo­dam.
A ver­da­de é que depois acabam também por não ter lá muito boas notas na es­co­la, ou por a­pre­sen­tar di­fi­cul­da­des no convívio com outras pessoas. Mesmo assim, con­ti­nua­mos com o esquema, pois permite que nos dediquemos so­sse­ga­da­men­te às nossas tarefas… Mas quem foi que nos disse que a principal das nossas tarefas – aquela que devemos fazer com maior sossego – não consiste em estarmos com os nossos filhos?
Os pro­ble­mas que, mais cedo ou mais tarde, te­rem­os de en­fren­tar em con­se­quên­cia dessa a­ti­tu­de co­mo­dis­ta são, sem dúvida, maiores e mais profundos do que aqueles que a televisão nos resolve no imediato.
Sentar crianças e jovens diante da te­le­vi­são não é forma de pr­epa­rá-los para a vida. Isto está mais do que es­tu­da­do e a­fir­ma­do por todos os peritos. E, mais im­por­tan­te do que isso, con­fir­mado pela ex­pe­ri­ên­ci­a.,
Se não ti­ver­mos pre­pa­ra­do os nossos filhos para a vida, teremos fracassado. E pouco importa que tenhamos obtido êxito noutras áreas, porque somos pais e é isso que dá sentido à nossa exis­tên­cia.
Por que é que, de uma vez por todas, não nos de­ci­di­mos a tomar uma a­ti­tude enérgica perante este assunto&#63
Temos duas soluções.
Uma delas é pas­sar­mos a u­ti­li­zar a te­le­vi­são com o mesmo cri­té­rio que usamos para utilizar os outros ins­tru­men­tos da casa: quando pre­ci­sa­mos deles.
Assim, li­ga­rem­os a televisão apenas para ver este ou aquele programa de­ter­mi­na­do, depois de ve­ri­fi­car­mos a sua con­ve­ni­ên­ci­a. Depois desligamos. Quem é que se lem­bra­ria de ter, por exemplo, a máquina de lavar roupa fun­cio­nan­do durante todo o dia?
A outra solução, mais radical (mas as coisas radicais estão na moda), consiste em dei­xar­mos de ter te­le­vi­são em casa. É uma boa hi­pó­te­se para aqueles que não gostam de fazer as coisas pela metade, ou que têm di­fi­cul­da­de em seguir com rigor os cri­té­rios res­tri­ti­vos que re­sol­veram seguir.
Não seríamos os pri­mei­ros a ir por esse caminho.
Soube re­cen­te­men­te (Le Monde Télévision – Paris, 14 de Agosto de 2000) que na França – apesar da a­bun­dân­cia de canais te­le­vi­si­vos por cabo e por satélite – 3,2% dos jovens dos 2 aos 19 anos crescem em famílias que pres­cin­di­ram vo­lun­ta­ria­men­te da te­le­vi­são por opção e­du­ca­ti­va. Também no nosso país (Portugal) existem muitas famílias que tomaram essa mesma opção, embora ela não seja, na­tu­ral­men­te, uma me­di­da po­pu­lar.
E estão contentíssimos com os frutos dessa escolha.
Nós… por que não?
Con­tro­lar a televisão, ou acabar com ela, seria talvez duro, ao prin­cí­pio. Mas depois co­me­ça­riam a acontecer coisas de­li­ci­o­sas. Como existirem ver­da­dei­ras re­fei­ções em fa­mí­lia, com au­tên­tico diálogo, onde os pequenos contam o que lhes aconteceu na escola e os pais trans­mi­tem as tradições fa­mi­lia­res e contam coisas dos avós e his­tó­rias antigas (é nesses serões fa­mi­li­a­res que os filhos aprendem a ficar loucos pelos pais). Coisas de­li­ci­o­sas como a filha visitar fre­quen­te­men­te a cozinha, para contar à mãe uma pas­sa­gem do livro que anda lendo (sem T.V. cres­ce­rá em um piscar de olhos o gosto pela leitura).
Como os serões serem passados em alegres jogos que contam com a par­ti­ci­pa­ção de todos.
Como o filho chamar várias vezes o pai à parte e dizer-lhe: “Pai, explica-me o por que disto…”.
Como vermos crescer os filhos fortes e com olhos limpos, com outra substância, com hábitos de trabalho, com outra ca­pa­ci­da­de de conviver.
Se to­más­se­mos uma posição enérgica perante a televisão, teríamos de passar a dedicar maior atenção aos filhos. Mas o fruto disso seria uma relação muito me­lhor entre todos os membros da família, um lar mais unido e com outra con­sis­tên­cia.
Atrevemo-nos?
Autor: Paulo Geraldo


Paulo Geraldo é de na­cio­na­li­da­de por­tu­gue­sa e este texto foi par­cial­men­te e­di­ta­do do por­tu­guês de Por­tu­gal para o por­tu­guês bra­si­lei­ro.

 

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